Quando pensamos em Xangô, pensamos na pedreira: pedras grandes, firmes, resistentes, que atravessam o tempo e permanecem de pé diante do vento e das tempestades. Mas talvez a pedreira de Xangô possa nos ensinar também a olhar para outras pedras -aquelas que carregamos dentro de nós.

Ao longo da vida, vamos colocando algumas delas em nossa bagagem: uma mágoa que não conseguimos abandonar, uma injustiça que sofremos, uma palavra que nos feriu, uma culpa que não perdoamos, uma decepção, uma traição ou até uma discussão que terminou há muito tempo, mas que continuamos repetindo silenciosamente em nossa cabeça. E, sem perceber, seguimos caminhando enquanto aumentamos o peso que levamos conosco.

Existem pedras que a vida coloca em nosso caminho e que não podemos evitar. Perdas acontecem, pessoas nos decepcionam, planos não dão certo e algumas injustiças realmente nos atingem. Xangô não nos ensina a fingir que nada aconteceu, nem a aceitar passivamente aquilo que nos feriu. Sua força está justamente na justiça, na consciência e no discernimento. Porém, existe uma diferença entre reconhecer aquilo que aconteceu e permitir que aquilo continue governando nossa vida. Podemos aprender com uma experiência sem precisar carregá-la para sempre.

Talvez uma das perguntas mais difíceis diante de Xangô seja: “Esta pedra ainda precisa estar comigo?” Algumas pedras se transformaram em aprendizado e hoje fazem parte do nosso alicerce. Outras já cumpriram sua função, mas continuamos segurando-as simplesmente porque não conseguimos soltá-las. Guardamos ressentimentos acreditando que estamos punindo quem nos feriu, quando muitas vezes somos nós que continuamos sentindo o peso. Esperamos que o outro reconheça seu erro para finalmente encontrarmos paz. Mas e quando esse reconhecimento nunca chega? Nossa vida ficará parada esperando?

Xangô também nos convida a perceber uma diferença muito delicada entre justiça e vingança. Justiça procura equilíbrio; vingança deseja que o outro sinta a mesma dor que sentimos. Justiça estabelece limites; vingança alimenta o ressentimento. Justiça nos protege; vingança nos mantém presos àquilo que aconteceu. Nem sempre aquilo que chamamos de desejo de justiça nasceu realmente da justiça. Algumas vezes é apenas nossa dor pedindo que alguém sofra para que possamos acreditar que o mundo voltou ao equilíbrio. É nesse momento que precisamos da balança de Xangô dentro de nós.

E há ainda uma pedra particularmente pesada: a necessidade de ter razão. Quantos relacionamentos já foram feridos porque ninguém conseguiu dar o primeiro passo? Quantas palavras poderiam ter sido evitadas? Quantas vezes continuamos uma discussão não porque ainda existe algo importante para resolver, mas porque queremos que o outro reconheça que nós estávamos certos? Xangô nos ensina firmeza, mas firmeza não é orgulho. Há momentos em que defender nossa verdade é necessário; em outros, a verdadeira sabedoria está em perceber que preservar nossa paz vale mais do que vencer uma discussão.

Também precisamos olhar para as pedras que lançamos sobre nós mesmos. Existem pessoas que conseguem perdoar quase todo mundo, menos a si próprias. Carregam durante anos escolhas das quais se arrependem, oportunidades perdidas e erros cometidos quando ainda não possuíam a consciência que possuem hoje. Responsabilidade é reconhecer o erro, reparar aquilo que for possível e aprender com ele. Condenar-se eternamente não é justiça. Se hoje somos capazes de olhar para uma atitude do passado e compreender que agiríamos diferente, talvez isso já seja sinal de que alguma transformação aconteceu.

Por isso, diante da pedreira de Xangô, podemos fazer um exercício diferente. Em vez de levarmos somente nossos pedidos, podemos imaginar que estamos colocando no chão aquilo que já não precisamos carregar: o ressentimento, a culpa, a necessidade de vingança, o orgulho, antigas discussões, julgamentos e dores que já nos ensinaram tudo aquilo que poderiam ensinar. Não para esquecer nossa história, mas para permitir que ela deixe de controlar nossos próximos passos.

Porque existem pedras que servem para construir nossa base, pedras que nos ensinam a subir e pedras que simplesmente precisam permanecer no chão. Nem toda pedra encontrada durante a caminhada precisa fazer parte da nossa bagagem.

Que Xangô nos dê discernimento para reconhecer a diferença. Que sua balança nos ensine o peso justo de cada coisa. Que seu machado corte aquilo que nos mantém presos ao passado. E que sua pedreira nos ensine uma das maiores formas de sabedoria: ser firme no que precisamos preservar e suficientemente livres para deixar para trás aquilo que já cumpriu sua missão em nossa vida.

Kaô Kabecilê, meu Pai Xangô!

Tenda de Umbanda Caboclo Tupinambá e Vó Catarina
Onde a caridade é o nosso maior fundamento.

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