Oxum, Senhora das águas doces, pode nos ajudar a compreender essa questão. O rio oferece água, alimenta a terra, sustenta a vida, refresca, limpa e permite que tudo ao seu redor floresça. Mas para continuar sendo fonte, ele também precisa ser alimentado. Quando apenas entrega e deixa de receber, pouco a pouco suas águas diminuem. Talvez conosco aconteça algo semelhante. Existem pessoas que passaram tanto tempo sendo fortes para os outros que já nem sabem mais dizer quando estão cansadas. Pessoas que aprenderam a acolher a dor de todos, mas sentem culpa quando precisam ser acolhidas. Que oferecem ajuda com facilidade, mas têm dificuldade de dizer: “Hoje sou eu quem precisa.”
E talvez seja justamente aí que Oxum nos coloque diante de seu espelho. O abebé de Oxum pode ser entendido como muito mais do que um símbolo de beleza. Ele nos convida a olhar para nós mesmos. Não para admirarmos apenas nossa aparência, mas para enxergarmos aquilo que existe por trás dela. Quem está diante desse espelho? O que essa pessoa tem sentido? O que tem suportado em silêncio? Do que precisa? Quais sonhos abandonou enquanto cuidava dos sonhos de todos? Há quanto tempo você não pergunta a si mesmo aquilo que pergunta para quem ama: “Você está bem?”
Existe ainda algo muito delicado nesse aprendizado: algumas pessoas aprenderam que amar significa se sacrificar sempre. Acreditam que ser bom é nunca negar um pedido, que ajudar significa estar disponível o tempo inteiro e que estabelecer limites é egoísmo. Mas será que Oxum, Orixá do amor, nos ensinaria um amor que exige que desapareçamos para que o outro exista? Amar alguém não deveria exigir o abandono de nós mesmos. Há uma diferença entre doar-se por amor e anular-se por medo de decepcionar. Entre ajudar e assumir responsabilidades que pertencem ao outro. Entre perdoar e permitir repetidamente a mesma agressão. Entre compreender alguém e justificar tudo aquilo que essa pessoa faz conosco.
Por isso, aprender a dizer “não” também pode ser uma forma de cuidado. Um limite não precisa ser construído com raiva. Podemos amar alguém e ainda dizer: “Isso eu não aceito.” Podemos compreender a história de uma pessoa sem permitir que ela nos machuque. Podemos perdoar e decidir não retornar ao mesmo lugar. Podemos desejar o bem de alguém e seguir por outro caminho. O amor de Oxum é doce, mas doçura não significa submissão. A água acolhe, envolve e alimenta, mas também possui direção.
Oxum também nos ensina algo que muitas vezes esquecemos: precisamos aprender a receber. Há pessoas que sabem dar carinho, mas ficam desconfortáveis quando recebem. Sabem elogiar, mas não conseguem aceitar um elogio. Ajudam todos, mas recusam ajuda porque acreditam que precisam resolver tudo sozinhas. Talvez cuidar de si também seja permitir que alguém cuide de nós. Receber não nos torna fracos, dependentes ou menos capazes. A vida é feita de trocas. Há momentos em que somos fonte e outros em que precisamos nos aproximar da fonte para beber.
E o espelho de Oxum nos apresenta ainda outra pergunta difícil: qual é o nosso valor quando ninguém está nos aplaudindo? Vivemos em uma época em que somos constantemente convidados a nos comparar. Vemos a aparência, as conquistas, as viagens, os relacionamentos e a felicidade que os outros escolhem mostrar. Sem perceber, podemos começar a olhar para nossa própria vida através da régua de outra pessoa. O espelho deixa de refletir quem somos e passa a refletir aquilo que acreditamos que deveríamos ser. Oxum pode nos ensinar a recuperar esse olhar. Reconhecer nosso valor não significa acreditar que somos melhores do que alguém; significa simplesmente compreender que não precisamos ser outra pessoa para merecer amor, respeito e dignidade.
Suas águas também nos falam sobre as emoções que represamos. Quantas vezes respondemos “está tudo bem” quando não está? Quantas lágrimas seguramos porque acreditamos que precisamos demonstrar força? Quantas mágoas escondemos para evitar conflitos? Água parada perde movimento. Sentimentos também precisam encontrar caminhos. Isso não significa despejar nossas dores sobre os outros, mas aprender a reconhecê-las, compreendê-las e permitir que sigam seu curso. Chorar também pode ser uma forma de nossas águas voltarem a correr.
E quando falamos de Oxum, falamos também de fertilidade. Não apenas da fertilidade que gera filhos, mas daquela que faz nascer possibilidades. Existem sonhos que precisam ser gestados. Projetos que necessitam de cuidado. Mudanças que começam pequenas. Uma nova profissão, um estudo, uma relação diferente consigo mesmo, uma reconciliação, uma decisão, uma nova fase espiritual. Assim como aquilo que está sendo gerado precisa de proteção antes de nascer, talvez nem todos os nossos sonhos precisem ser mostrados antes de estarem fortes. Há coisas que crescem melhor quando recebem menos opinião dos outros e mais cuidado nosso.
Talvez, então, cuidar de si sob as águas de Oxum seja muito mais do que reservar algumas horas para descansar. É observar onde estamos nos abandonando. É aprender a respeitar nossos limites. É permitir que nossas emoções existam. É não mendigar aquilo que deveria chegar acompanhado de reciprocidade. É parar de diminuir nossa luz para que alguém se sinta confortável. É cuidar do corpo, da mente e do espírito. É recuperar sonhos esquecidos. É aceitar ajuda. É compreender que também merecemos receber aquilo que oferecemos com tanta facilidade.
Neste mês de Oxum, talvez possamos fazer um exercício diferente. Em vez de perguntarmos somente “O que eu posso fazer por quem amo?”, podemos acrescentar: “O que eu preciso fazer por mim?” Onde minhas águas estão secando? O que tenho oferecido além das minhas forças? Que limite preciso estabelecer? Que sonho precisa voltar a ser cuidado? Que parte de mim venho deixando para depois?
Que Mamãe Oxum lave a culpa que sentimos quando escolhemos nos preservar. Que suas águas nos ensinem a amar sem nos anular, servir sem nos esvaziar, perdoar sem perder nossos limites, oferecer sem esquecer de receber e cuidar dos outros sem abandonar aquele que também foi colocado sob nossa responsabilidade nesta existência: nós mesmos.
Porque podemos ser colo, fonte, abrigo e água para muitas pessoas. Mas chega um momento em que precisamos compreender uma verdade simples e profunda:
quem passa a vida inteira oferecendo água aos outros sem nunca beber também sente sede.
E talvez Oxum esteja nos perguntando, diante de seu espelho:
“Você tem cuidado de todos… mas quem está cuidando de você?”
Ora Yê Yê Ô, Mamãe Oxum!
Tenda de Umbanda Caboclo Tupinambá e Vó Catarina
Onde a caridade é o nosso maior fundamento.