Mas a depressão é uma condição de saúde real, que merece ser acolhida com seriedade, sem julgamentos e, quando necessário, acompanhada por profissionais. A espiritualidade pode caminhar ao lado desse cuidado — e é nesse lugar que podemos refletir sobre o que as águas de Oxum têm a nos ensinar quando nossas próprias águas parecem ter parado de correr.
Oxum é senhora das águas doces, dos rios que alimentam a vida, da sensibilidade, do amor, da fertilidade e do cuidado. E talvez uma de suas primeiras lições para quem atravessa um período de profunda tristeza seja justamente esta: você não precisa estar bem o tempo inteiro. Um rio não possui a mesma correnteza todos os dias. Existem épocas de águas abundantes e períodos em que seu nível diminui. Há dias de correnteza e dias de calmaria. Nem por isso o rio deixa de ser rio.
Da mesma maneira, existem momentos em que simplesmente não conseguimos oferecer ao mundo aquilo que oferecíamos antes. E talvez seja justamente aí que precisemos parar de exigir de nós mesmos uma força que naquele momento não temos. Oxum nos fala de cuidado. E cuidar de si, nesses períodos, pode começar por coisas muito pequenas: levantar, tomar banho, alimentar-se, abrir uma janela, sentir o sol, beber água, conversar com alguém de confiança, aceitar companhia ou procurar ajuda. Há dias em que continuar vivendo o dia já é um grande movimento.
O espelho de Oxum também ganha outro significado diante da depressão. Quem sofre pode começar a enxergar a si mesmo através da dor: “Eu não sirvo para nada.” “Sou um peso.” “Nunca vou melhorar.” “Minha vida perdeu o sentido.” Mas aquilo que a dor nos faz pensar sobre nós não necessariamente corresponde àquilo que somos. O espelho de Oxum nos convida a tentar olhar além desse momento e lembrar que uma fase dolorosa da nossa história não define todo o nosso valor.
Talvez, nesses momentos, nem sempre consigamos olhar para o espelho e reconhecer nossa própria beleza ou força. Então podemos precisar que outras pessoas nos emprestem seus olhos por algum tempo. Alguém que nos diga: “Eu estou aqui.” “Vamos procurar ajuda.” “Você não precisa atravessar isso sozinho.” Permitir-se receber cuidado também é uma forma de coragem. Oxum nos ensina a oferecer amor, mas também pode nos ensinar algo que muitas pessoas consideram ainda mais difícil: aceitar amor quando somos nós que precisamos dele.
E há algo profundamente simbólico nas águas de Oxum. Quando encontramos um rio bloqueado por galhos, pedras e folhas, não condenamos o rio porque sua água deixou de correr livremente. Procuramos entender o que está impedindo seu curso. Com uma pessoa deveria ser parecido. Diante da depressão, a pergunta não deveria ser “Por que você não reage?”, mas “O que você está enfrentando e como podemos ajudá-lo?”
Isso também vale para nós mesmos. Em vez de nos acusarmos por não conseguir fazer tudo aquilo que fazíamos, talvez possamos perguntar: “Do que eu preciso hoje?” Não amanhã. Não para resolver toda a vida. Apenas hoje.
A água também nos ensina sobre movimento. Não precisamos exigir uma grande correnteza quando só conseguimos produzir uma pequena gota. Um passo pode parecer insignificante, mas ainda é movimento. Pedir ajuda é movimento. Aceitar tratamento é movimento. Retomar uma atividade aos poucos é movimento. Fazer uma oração é movimento. Voltar ao terreiro e permitir-se ser acolhido é movimento. Conversar com alguém é movimento. Nem todo recomeço chega fazendo barulho. Alguns começam silenciosamente.
Dentro da Umbanda, podemos encontrar na oração, no passe, na escuta, na convivência da comunidade e no amparo espiritual recursos que tragam conforto e fortalecimento. Mas nossa fé não precisa disputar espaço com a medicina ou com a psicologia. Cuidar do espírito e cuidar da saúde podem caminhar juntos. Procurar um psicólogo ou médico não significa falta de fé, assim como fazer uma oração não significa abandonar o tratamento. Se acreditamos que a vida é sagrada, cuidar dela por todos os meios responsáveis também é uma forma de respeito ao sagrado.
E talvez Oxum tenha ainda uma mensagem especial para quem acredita que nunca mais conseguirá sentir alegria: não julgue toda a sua existência pela paisagem que consegue enxergar hoje. Um rio atravessa lugares escuros, pedras, barrancos e períodos de pouca água, mas seu caminho não termina necessariamente naquele trecho.
Se hoje suas águas estiverem fracas, não se condene. Cuide delas. Se não conseguir cuidar sozinho, permita que alguém se aproxime. Se estiver difícil demais, peça ajuda. Se hoje você não consegue acreditar que dias melhores podem chegar, deixe que alguém sustente essa esperança junto com você por algum tempo.
Que Mamãe Oxum acolha aqueles que estão cansados por dentro. Que suas águas simbolizem o carinho que precisamos aprender a oferecer a nós mesmos. Que ela nos inspire a perceber a dor do outro antes de julgá-lo e nos ensine que pedir ajuda não diminui ninguém.
Que, diante de quem sofre, saibamos trocar o “reaja” pelo “eu estou aqui”, o “você precisa ser forte” pelo “não precisa enfrentar isso sozinho”, e o julgamento pelo acolhimento.
Porque até quando um rio parece quase sem movimento, ainda existe água procurando um caminho.
Ora Yê Yê Ô, Mamãe Oxum!
Tenda de Umbanda Caboclo Tupinambá e Vó Catarina
Onde a caridade é o nosso maior fundamento.
Este texto traz uma reflexão espiritual e não substitui acompanhamento psicológico ou médico. Depressão é uma condição de saúde tratável e merece cuidado profissional.