Os Orixás não se divinizaram pela benevolência ou pela perfeição, mas por terem reconhecido e superado seus grandes erros. Ogum, o guerreiro invencível, após uma longa jornada, retorna a seu reino no exato dia em que seus súditos cumpriam um voto de silêncio que ele mesmo havia imposto.

Os Orixás não se divinizaram pela benevolência ou pela perfeição, mas por terem reconhecido e superado seus grandes erros. Ogum, o guerreiro invencível, após uma longa jornada, retorna a seu reino no exato dia em que seus súditos cumpriam um voto de silêncio que ele mesmo havia imposto. Não reconhecido e tomado pela fúria, massacra seu próprio povo, para depois, tomado pelo arrependimento, ser tragado pela terra e tornar-se Orixá. Sua maior virtude, a força e a determinação, foi sua maldição. O apócrifo Evangelho de Tomé: "Se vocês trouxerem à tona o que está dentro de vocês, o que vocês têm os salvará. Se não trouxerem à tona o que está dentro de vocês, o que vocês não têm os matará." É no reconhecimento da própria sombra que a luz se faz possível.

O andarilho confessa, então, uma verdade que muitos relutam em admitir: mesmo conseguindo ver o céu, o sol e as estrelas; mesmo encantado com as maravilhas do voo, ele não conseguia se lançar ao vento. Algo o impedia. Algo que ele mesmo alimentava sem perceber. Dom Quixote, ele lutava contra moinhos que julgava gigantes, mas o verdadeiro campo de batalha era seu próprio coração. O Cavaleiro da Triste Figura, após tantas aventuras e desventuras, descobre que a loucura de seus ideais era também a única forma de manter viva a chama de um mundo melhor. Mas o andarilho, ao contrário, percebe que sua batalha não é contra o mundo, mas contra os moinhos que ele mesmo ergueu em sua mente.

Ele ainda se ofendia com opiniões, decepcionava-se com escolhas alheias, irritava-se quando algo dava errado. Quando não explodia pela sensação de injustiça, implodia ao se sentir vítima das circunstâncias. E o pior: ele sofria ao tropeçar, pois tinha consciência de que ainda usava as navalhas das sombras em vez das asas da luz. As navalhas cortam as asas e impedem os voos. Me lembro do itan de Oxum, que, desafiada por sua curiosidade e inteligência, não se deixou abater pela proibição de aprender o jogo de búzios, tradicionalmente restrito aos homens. Com astúcia e persistência, ela conquistou o conhecimento de Exu, o senhor da comunicação e dos limites. A lição é clara: a sabedoria não está em nunca cair, mas em, como Oxum, encontrar o caminho para transformar a proibição em possibilidade.

Aquele abraço, O Curandeiro de Almas (@curandeirodealmas)

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