Vivemos em um mundo que nos ensina a insistir. Se algo não deu certo, tente mais. Se uma porta fechou, bata novamente. Se alguém não compreendeu, explique outra vez. Se uma situação está difícil, seja forte e continue. E assim vamos aprendendo que desistir, recuar ou mudar de direção é sinal de fraqueza. Mas será que toda batalha precisa realmente ser vencida? Será que continuar tentando é sempre coragem? Oxum, senhora das águas doces, pode nos ensinar que existem momentos em que a verdadeira força não está em enfrentar a correnteza, mas em compreender para onde ela está nos levando.

Observe um rio. Quando encontra uma pedra, a água não para para discutir com ela. Não tenta provar que é mais forte. Algumas pedras ela atravessa, outras contorna e algumas transforma lentamente com o passar do tempo. Quando encontra um obstáculo grande demais, procura outra passagem e continua seguindo. E talvez exista uma profunda sabedoria nisso. Quantas vezes gastamos nossa energia tentando mudar pessoas que não desejam mudar, tentando manter relações que já perderam o sentido, tentando abrir portas que permanecem fechadas ou tentando controlar situações que simplesmente não dependem de nós? Às vezes não estamos persistindo porque ainda acreditamos naquele caminho. Estamos insistindo porque temos medo de aceitar que ele terminou.

Oxum nos ensina que delicadeza não é fragilidade. A água é suave quando passa por nossas mãos, mas é capaz de atravessar montanhas, transformar paisagens e modificar pedras. Sua força não está no confronto permanente, mas na continuidade. Há uma força imensa em quem consegue permanecer doce sem ser ingênuo, sensível sem ser frágil e amoroso sem permitir que os outros ultrapassem seus limites. Nem sempre precisamos levantar a voz para demonstrar firmeza. Nem sempre precisamos responder a uma provocação. Nem sempre precisamos convencer alguém da nossa verdade. Existem momentos em que preservar nossa paz é uma escolha muito mais poderosa do que vencer uma discussão.

Mas Oxum também pode nos ensinar a diferença entre persistir e insistir. Persistir é continuar cuidando daquilo que ainda possui vida, mesmo que exija paciência e esforço. Insistir é continuar alimentando algo que já nos mostra, repetidamente, que não pode florescer da maneira como desejamos. Persistir fortalece; insistir pode nos esgotar. E reconhecer essa diferença exige maturidade, porque algumas vezes aquilo que precisamos deixar para trás não é algo ruim. Pode ser algo que foi importante, que nos trouxe felicidade e que fez sentido durante determinado período de nossa caminhada. Nem tudo termina porque deu errado. Algumas coisas simplesmente cumprem sua missão em nossa vida.

Talvez uma das maiores dificuldades seja aceitar que não controlamos tudo. Queremos saber quando, como e por que as coisas acontecerão. Criamos planos, expectativas e imaginamos caminhos. Quando a vida muda a direção, sentimos que perdemos o controle. Mas o rio de Oxum nos lembra que mudar o caminho não significa perder o destino. Às vezes aquilo que interpretamos como atraso está nos preparando. Aquilo que enxergamos como uma porta fechada pode estar nos afastando de algo que já não nos pertence. E aquilo que hoje parece uma perda pode abrir espaço para algo que ainda nem conseguimos imaginar.

Isso não significa simplesmente aceitar tudo o que acontece. Oxum não nos ensina passividade. Há momentos de lutar, defender nossos direitos, estabelecer limites e dizer “não”. Mas existe também sabedoria em perceber quando nossa luta deixou de construir e começou apenas a nos consumir. Talvez uma pergunta importante seja: “Estou lutando por algo que ainda vale a pena ou apenas tenho medo de soltar aquilo que já conheço?”

E há coisas que realmente precisam ser deixadas seguir: expectativas que nunca se realizaram, relações que nos diminuem, culpas antigas, planos que já não combinam com quem nos tornamos e até versões de nós mesmos que já cumpriram sua missão. Soltar não significa dizer que aquilo não foi importante. Significa reconhecer que não precisamos carregar para sempre tudo aquilo que um dia fez parte da nossa história.

Neste mês de Oxum, que possamos aprender com suas águas a escolher melhor onde colocamos nossa energia. Que tenhamos força para lutar quando for necessário, paciência para esperar quando ainda não for o momento, sabedoria para contornar aquilo que não precisa ser enfrentado e coragem para deixar seguir aquilo que já terminou. Que Oxum nos ensine que algumas conquistas exigem força para segurar, mas algumas libertações exigem uma força ainda maior para soltar.

Porque a água não precisa quebrar todas as pedras para chegar ao seu destino. Algumas ela atravessa, algumas transforma, outras contorna — e algumas simplesmente deixa para trás. E continua correndo.

Ora Yê Yê Ô, Mamãe Oxum! 

Tenda de Umbanda Caboclo Tupinambá e Vó Catarina
Onde a caridade é o nosso maior fundamento.

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