Vivemos em um tempo em que quase tudo parece precisar acontecer depressa. Queremos respostas rápidas, resultados imediatos, mudanças visíveis e certezas sobre o amanhã. Começamos um projeto e logo queremos vê-lo prosperar. Fazemos uma escolha e esperamos rapidamente a confirmação de que escolhemos certo. Plantamos e já queremos colher. Quando aquilo que desejamos demora a acontecer, começamos a duvidar: “Será que estou no caminho certo? Será que devo desistir? Por que para os outros parece acontecer tão rápido e para mim não?” É justamente diante dessa ansiedade que Oxum pode nos ensinar sobre um dos maiores mistérios da vida: o tempo da gestação.

Oxum está profundamente relacionada à fertilidade, à maternidade e à capacidade de gerar vida. Mas podemos compreender essa fertilidade para além da geração de um filho. Durante nossa existência, estamos constantemente gestando alguma coisa: um sonho, um projeto, uma mudança, um relacionamento, um conhecimento, uma decisão, uma transformação espiritual ou uma nova maneira de enxergar a nós mesmos. E toda gestação possui um período em que aquilo que está sendo formado ainda não pode ser visto. Nem tudo que está em silêncio está parado. Algumas das maiores transformações da nossa vida acontecem onde ninguém consegue enxergar.

Pense em uma semente debaixo da terra. Durante algum tempo, olhando apenas para a superfície, parece que nada está acontecendo. Mas no escuro ela rompe sua própria casca, cria raízes e começa a se preparar para atravessar a terra. Se alguém desistisse dela porque ainda não viu a primeira folha, talvez abandonasse justamente aquilo que já havia começado a nascer. Assim também acontece conosco. Existem momentos em que estamos criando raízes. Aprendendo. Nos fortalecendo. Curando alguma coisa. Adquirindo experiência. Preparando estruturas. O fato de ainda não existir uma flor não significa que não exista crescimento.

Oxum também nos convida a refletir sobre a nossa relação com o tempo. Muitas vezes não sofremos porque algo não aconteceu, mas porque não aconteceu quando queríamos. Criamos prazos para a vida: determinada idade para casar, conquistar uma casa, ter filhos, alcançar estabilidade, mudar de profissão, encontrar alguém, realizar um sonho. E quando nossa história não acompanha o calendário que imaginamos, começamos a acreditar que estamos atrasados. Mas cada vida possui seu próprio curso. Um rio não pergunta ao outro por que chegou primeiro. Ele simplesmente segue seu caminho até encontrar o seu destino.

As redes sociais tornaram essa comparação ainda mais difícil. Vemos a conquista de alguém, mas raramente vemos tudo aquilo que aconteceu antes dela. Vemos a flor, mas não acompanhamos a raiz. Vemos o resultado, mas não os anos de tentativa. Vemos o sorriso, mas não conhecemos todas as lágrimas. E então cometemos uma injustiça conosco: comparamos o nosso processo com o resultado de outra pessoa. Oxum pode nos ensinar a voltar os olhos para nossas próprias águas e respeitar o curso da nossa história.

Mas esperar o tempo certo não significa permanecer parado. Gestar também é trabalhar. Uma mãe não simplesmente espera o nascimento; seu corpo alimenta, protege e transforma aquilo que está sendo formado. Da mesma maneira, nossos sonhos precisam ser nutridos. Se desejamos conhecimento, precisamos estudar. Se queremos um projeto, precisamos trabalhar por ele. Se buscamos crescimento espiritual, precisamos de disciplina e transformação de atitudes. Se desejamos uma relação saudável, precisamos aprender a construí-la. Não basta pedir a Oxum que faça florescer aquilo que nós mesmos deixamos de regar.

E existe outro ensinamento precioso: nem tudo que está sendo gestado precisa ser mostrado antes da hora. Vivemos numa época em que sentimos necessidade de contar nossos planos, anunciar nossos projetos e compartilhar cada passo. Mas algumas coisas precisam primeiro criar raízes. Nem todo sonho precisa receber a opinião de todos. Nem todo projeto precisa ser explicado enquanto ainda está sendo construído. Há momentos em que o silêncio não é segredo nem medo; é proteção. Assim como o ventre protege aquilo que ainda está se formando, também podemos aprender a proteger alguns sonhos até que estejam suficientemente fortes para encontrar o mundo.

Oxum também nos ensina a diferença entre esperar e abandonar. Esperar não significa deixar de agir. É continuar cuidando mesmo quando o resultado ainda não apareceu. É fazer nossa parte sem arrancar a semente da terra todos os dias para verificar se ela já criou raízes. Quantas vezes prejudicamos nossos próprios processos pela ansiedade de saber se darão certo? Mudamos de direção constantemente, desistimos cedo demais ou começamos outra coisa porque aquilo que iniciamos ainda não apresentou resultado. Talvez algumas coisas em nossa vida não precisem de uma nova tentativa. Talvez precisem apenas de mais tempo e continuidade.

Isso não significa que tudo aquilo que desejamos necessariamente acontecerá. Há sementes que não germinam, projetos que precisam ser modificados e caminhos que realmente chegam ao fim. A sabedoria também está em perceber isso. Mas existe uma grande diferença entre reconhecer que algo terminou e desistir simplesmente porque ainda não floresceu. É aí que precisamos de discernimento para perguntar: “Isso realmente perdeu seu sentido ou estou apenas cansado de esperar?”

Neste mês de Oxum, talvez possamos olhar para aquilo que estamos gestando em silêncio. O que existe hoje em sua vida que ainda não apareceu por completo? Um sonho? Uma mudança? Uma cura interior? Um aprendizado? Uma nova fase? Em vez de perguntar apenas “Por que ainda não aconteceu?”, talvez possamos perguntar: “O que preciso continuar nutrindo enquanto não acontece?”

Que Mamãe Oxum nos dê paciência para respeitar os processos, sabedoria para reconhecer o momento de agir, serenidade para não comparar nosso tempo com o tempo dos outros e perseverança para continuar cuidando daquilo que verdadeiramente merece nascer. Que suas águas fertilizem nossos projetos, nossos sentimentos, nossa espiritualidade e tudo aquilo que carregamos no coração com boas intenções.

Porque talvez precisemos lembrar de uma verdade muito simples:

Nem toda espera é atraso. Algumas esperas são gestação.

E quando parecer que nada está acontecendo, lembre-se: a semente começa sua transformação muito antes de a primeira flor aparecer.

Ora Yê Yê Ô, Mamãe Oxum! 

Tenda de Umbanda Caboclo Tupinambá e Vó Catarina
Onde a caridade é o nosso maior fundamento.

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